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Crónicas de um outro tempo. vol. II
COSTA, José Ernesto - Crónicas de um outro tempo. vol. II. Ponte de Lima: [s.n.], 2005. 115 p.
Um Comentário
A Poesia Portuguesa não é pródiga em obras autobiográficas. Que me lembre, só falaram detalhadamente da sua infância e juventude os grandes poetas Cesário Verde, celebrando as suas laboriosas estadas nos campos de Linda-a-Pastora; António Nobre, "menino da sua mãe", frente ao mar bravio de Leça e nas boémias coimbrãs e parisienses; assim como Silva Tavares, evocando os primeiros amores e o primeiro cigarro; eu próprio editando em Álbum de Família, onde retratei os meus, desde os meados do século XIX, havendo, mesmo, cantando uma remota avó Senhorinha, do distante século XVI. Parentas velhas como as que António Sardinha descreve em versos cheios de ternura e emoção.
José Ernesto Costa contribui, agora, para este breve registo, com um livro magnífico, também no aspeto gráfico, repleto de fotografias pitorescas e elucidativas, intitulado Crónicas de um outro Tempo, que promete continuidade.
Não é estreia do autor no domínio da poesia ou no domínio da história regional. E isso reconhece-se na desenvoltura com que utiliza a palavra adequada para nos fazer chegar à sensibilidade tanto episódio e tantas figuras características, polulares, da Ponte de Lima dos seus anos de garoto e adolescente.
Num prosaísmo que dá sabor aos textos e originalidade, acesos de calor humano, trazendo-me à memória muito da poesia cabo-verdeana e brasileira, quer de Jorge Barbosa, quer de Manuel Bandeira e Jorge de Lima, estas Crónicas de um outro Tempo perpetuam uma vida limiana humilde, de pequeno comércio, pequenos ofícios e pequenos lazeres (recordo-me da "dona Sarinha", dos Correios, através de umas páginas natalícias do Conde d' Aurora), quase sempre de uma "arraia miúda", que o nosso primeiro Fernão Lopes, também com alma de poeta, não esqueceu e a quem ofereceu a glória da eternidade.
O melhor louvor que lhes faço é confessar que, lendo-as, tive fundas saudades desse "outro tempo" que não me foi dado viver!
António Manuel Couto Viana