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Uma arca encarnada de Mercedes Feijó

Publicações
Arca encarnada 1 1024 2500
26 Janeiro 1989

CASTRO, Lopo - Uma arca encarnada de Mercedes Feijó. Ponte de Lima : [s.n.], 1989. 99 p.

  • Preço: €3,25 (inclui o valor da taxa de IVA legal em vigor)
  • Como encomendar: contacte-nos através do e-mail: arquivo@cm-pontedelima.pt 

Introdução

No quarto que Mercedes Feijó, de seu verdadeiro nome joana Mercedes Lecticia Dagmar, longos anos habitou no hotel de l' Arcade, em Paris, existia uma envelhecida arca de razoáveis dimensões, que não constava do articulado do seu testamento. Era, no entanto, do conhecimento do Cabinet Chambrun, em quem o Scandinaviska Enskilda Banken subestabelecera a liquidação dos bens que ela possuía em Paris, Biarritz e Nova York, depois de cumprir as disposições testamentárias referentes à Suécia.

Além de Mr. Heinezen (um dos advogados do referido consórcio de advogados-gentlemen), de umas vagas primas que tinha em França e o dono do hotel, inclusive, sabiam qual o conteúdo dessa arca e mais sabiam, que por sua vontade, verbalmente expressa, o que ela continha destinava-se a distribuir por todos os seus amigos que dela quisessem retirar qualquer objeto que lhes servisse de recordação da sua passagem por este triste Mundo.

Não cuidamos nem cuidaremos saber o que havia nessa arca aberta. Foi-nos depois remetida com livros que nos legara e que não couberam nas outras embalagens que, também com livros, nos foram enviadas. Havia exemplares de Fénelon, Boileau, Molíêre, etc., como que em representação dos clássicos; havia também dos mais modernos - Apollinaire, Rimbaud, Prévert, um apreciável e apreciado lote da revista francesa Historia, dirigida pelo meu amigo Christian Melchior-Bonnet e o imprescindível Toi et Moi, de Géraldy.

O resto que a velha arca continha eram papéis: bagatelas, um mare magnum de papelada, atributo do sexo feminino, bugigangas, bijouterias de pechisbeque (o que é estranho por ser possuidora de um considerévellote de joias valiosas) em tal quantidade que Paulina Bonaparte -aliás Paoleta, nascida no dia que a Mitologia, com antecipada ironia, o consagrou a Vénus- não desdenharia em repartir com ela o cognome de Reine des Colifichets. E ainda um envelope com umas dúzias de ementas para almoços e jantares encabeçadas com as armas dos Feijós.

Retirados os livros - a arca e seu recheio ficaram com o destino marcado: fogueira ou contentor do lixo.

No momento em que a tampa estava quase a fechar-se reparamos numa bola de papel, melhor, num papel feito bola, amarfanhado e desprezado. Era um folheto de uma dúzia de páginas: era a Satyra Funambulesca assinada por Fra-Diavolo que Júlio de Lemos, nos Anais Municipais de Ponte de Lima considerava, desgostoso, ser impossível reeditar por se ter extraviado o último exemplar conhecido - este com duas ou três emendas do punho do autor. De pronto a fizemos seguir para seu natural destino: o Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima.

Curioso é que cem anos depois o Dr. João Gomes de Abreu Lima identificasse todas as personagens que eram sugeridas na Satyra.

Começamos então o infindo trabalho de procurar qualquer outro papel possivelmente tão desprezado como a Satyra. Encontramos cartas de Blaise Cendrars, outras de Poetas e também de poetas-prosadores e, pelo meio, o retrato de um bem parecido homem de meia idade, uma página de revista sueca e um recorte de um jornal - talvez de O Primeiro de janeiro.

João Gomes d' Abreu disse-nos um dia: - Tudo o que diz respeito a António Feijó nos interessa.

Aqui tem o que uma velha arca encarnada lhe pôde conseguir.