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A feira de Ponte

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05 Março 2012

AURORA, Conde d' - A Feira de Ponte. Ponte de Lima: Arquivo de Ponte de Lima, 2012. 197 p. ISBN 978-972-8846-39-8.

  • Preço: €6,00 (inclui o valor da taxa de IVA legal em vigor)
  • Como encomendar: contacte-nos através do e-mail: arquivo@cm-pontedelima.pt 

Introdução

Et homines qui de cunctis terris uenerint ad feiram et ad illos malefecerit tam eundo quam redeundo pariat LXa solidos.

Esta sentença lapidar do foral teresino de 1125, que deu alforria a Ponte de Lima, consagra a mais antiga referência a uma feira em Portugal. Criada de novo? Confirmado um antigo costume? Pouco importa. A feira gerou o município e foi a alavanca do seu desenvolvimento.

A localização privilegiada do pequeno burgo junto à única ponte que vencia o Lima deu origem a uma rede de acessibilidades centrada neste local. Este posicionamento estratégico destinou Ponte de Lima como um "nódulo de trânsito" e propiciou a criação de uma feira com uma imensa área de influência onde regulava o movimento dos géneros.

Crê-se que ao longo dos séculos não tenha havido interrupção de monta na sua realização quinzenal. Como se crê também que o extenso areal extra-muros da vila tem sido desde sempre o seu palco permanente, podendo até o velho pelourinho, em torno do qual ainda hoje se arma, ser uma sobrevivência referencial da medieva "cruz do mercado".

Durante oitocentos anos conservou-se o local, respeitaram-se os direitos e os costumes, mercaram-se os mesmos artigos ­ o gado, a produção agrícola, o pescado, os materiais de consumo e as manufaturas. A tanoaria, a cestaria, a ferraria, a cerâmica, a tecelagem e os curtumes fizeram recurso das mesmas matérias e dos mesmos processos de laboração até muito aquém da revolução industrial e transmitiram-se conhecimentos que remontam pelo menos à ocupação romana. Que diferença substancial faz um brinco "à rainha" de uma arrecada castreja? Ou um vulgar cântaro de Barcelos de uma ânfora ibero-púnica de engobe vermelho? Ou uma vessadoura minhota de um arado quadrangular suevo? E uma peça de surrobeco tecida há trinta ou quarenta anos na Serra Amarela seria assim tão diferente de um burel de Saragoça que vestia um frade da Idade Média?

Com o desenvolvimento industrial que no nosso país se fez sentir de uma forma generalizada no pós-guerra e com as alterações sociais e económicas que condenaram o mundo rural, os artigos manufaturados com os materiais da região entraram em declínio e a crise da lavoura contribuiu com a escassez de meios. O plástico, as fibras e as ligas leves tudo substituíram. Da velha feira tradicional ficou-nos apenas o gado e alguns produtos agrícolas e mesmo estes em risco de se extinguirem com a brutal imposição das reformas comunitárias. Onde para o bragal de linho? E as maçãs carnoesas? E a vaca cachena?

A clarividência do Conde d'Aurora, um distinto pontelimense profundamente arreigado às velhas tradições da sua terra­pátria, entendeu este drama quando todos os seus pares batiam palmas à renovação. Corriam os anos 50 e fechava-se um ciclo da História sem registo do seu curso. Gritou alto o desespero numa brilhante comunicação* que fez em 1964 no Instituto de Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, com a designação Feira de Ponte e que já em 1959 publicara em apêndice à terceira edição do seu magnífico Roteiro da Ribeira-Lima. Mas não ficou por aí. Registou em dezenas de fotografias as mais belas imagens das últimas feiras tradicionais, que com ele morreram em pouco mais de três anos. Ficou porém o testemunho, que se não perdeu.

Fixado o texto e seleciona das as fotografias, a que se juntaram umas tantas mais para alargar a cobertura, decidiu o Arquivo de Ponte de Lima inserir esse trabalho na sua Série Estudos e Documentos. Não tivera o Conde dAurora a lucidez de em tempo oportuno registar a moribunda feira, que já poucos hoje recordam, e ter-se-ia perdido a memória do que foi, na sua autenticidade, durante oitocentos anos, a Feira de Ponte. Possa agora este livro, este álbum, contribuir para reforçar em todos nós o sentimento da autoestima e de nos comprometer na salvaguarda ativa do nosso património comum.

A Feira não morreu, apenas se atualizou.


Feira de Ponte, 7 de fevereiro de 2005.

João Gomes d'Abreu
(Diretor do Arquivo de Ponte de Lima